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Críticas

Cineplayers

A hora e a vez de Collet-Serra.

5,5
Já faz algum tempo que observo amigos críticos perseguindo uma espécie de herdeiro dos anos 80/90, algum tipo de discípulo que estivesse a altura de John Mctiernan, Richard Donner e Renny Harlin. Esse trio soube conduzir com maestria um manancial de filmes blockbusters com um misto de qualidade, ousadia e categoria, tirando um certo ranço ordinário que atingia os filmes de brucutu, os "one action hero movies", e injetando algo além de garra e adrenalina, mas também humanidade. Através de longas como as séries 'Máquina Mortífera', 'Duro de Matar', e mais 'Risco Total', 'Predador', 'Maverick' e 'Despertar de um Pesadelo', esse trio desafiou as décadas ousando dizer que seus personagens poderiam matar quantos fossem, mas eles manteriam suas características humanas, ainda que sofrendo e sangrado. Talvez nenhum outro diretor hoje beba tanto dessa herança quanto Jaume Collet-Serra. Mas quem diabos é Jaume Collet-Serra?

Surgido no cinema em solo americano com um produto tão de encomenda quanto 'A Casa de Cera', Collet-Serra não teve o melhor cartão de visitas, e é ainda muito por causa dele que o espanhol encontra resistência nos paladares mais exigentes. Mas é só traçar um paralelo com essa linhagem do cinema americano que aliou músculos a estética, com uma visão original para o cinema de ação onde o herói poderia até mesmo morrer, que Collet-Serra começa a fazer todo o sentido. Isso porque depois da estreia e do filme seguinte, o curioso thriller 'A Órfã', o diretor começou uma parceria com Liam Neeson cuja quarta colaboração será lançada ano que vem e que tem feito sua lente refinar. O maior sucesso dessa parceria (e do diretor no geral) ainda é o segundo exemplar, 'Sem Escalas', uma espécie de reedição melhorada do hit dos anos 90 'Passageiro 57', com Wesley Snipes. Ainda que seu melhor filme até hoje tenha sido o seguinte ('Noite sem Fim', um excelente acerto de contas neo-noir entre Neeson e Ed Harris), parece que Collet-Serra não cansa de evoluir.

Se esse novo 'Águas Rasas' não tem o gabarito do anterior, é verdade que o diretor está investindo num produto e numa pegada diferente aqui, uma espécie de desafio pessoal para se provar particularmente capaz de uma guinada para um lado ainda não arriscado. E ainda que não seja um produto em nada inovador ou marcante, Collet-Serra volta a conjugar tensão de maneira crível. Bebendo em fontes mais do que manjadas, o jovem espanhol nunca foi afeito mesmo a descobrir uma nova forma de criar pólvora. E influências que vão do óbvio 'Tubarão' a 'Náufrago' aparecem a todo tempo, sem emperrar a trama ou torná-la cansativa. Ao contrário do que se possa imaginar, é o longa estrelado por Tom Hanks a maior referência para Collet-Serra, e num produto com tais características fica claro que o mais importante seria o carisma e talento da atriz certa protagonizando.

Eis que surge uma combinação da ascendente Blake Lively com as lentes do experiente Flavio Labiano para transformar o que faltava em 'Águas Rasas'. O fotógrafo que já tinha trabalhado três vezes antes com o diretor e também costuma colaborar com Alex de La Iglesias coloca na tela grande um visual inesquecível de uma orla semi deserta, com tons de verde e azul simplesmente indescritíveis, em tomadas aéreas e subaquáticas perfeitas. O auxílio luxuoso da bela presença de Lively dá o tom dourado essencial num momento onde a jovem atriz está pronta a explodir em frente dupla e distinta, protagonista aqui e coadjuvante em 'Café Society'. Graças ao misto de coragem e impetuosidade que ela empresta a sua personagem, acreditamos em cada decisão tomada pela médica que só queria sarar algumas feridas familiares e acaba ficando a mercê da fome incontrolável de um tubarão que a enclausura na imensidão do mar.

Sem nenhuma pretensão maior do que entreter uma sessão lotada por uma hora e meia, Collet-Serra vai construindo um nome, sinônimo cada vez mais tanto de qualidade quanto de retorno de bilheteria. As características humanas que ele garimpou no cinema de ação dos protagonistas oitentistas também batem ponto nesse longa metragem de visual arrebatador e tensão idem, que tinha como propósito trazer um diferencial a uma carreira já tão celebrada pela crítica saudosista de um período que não volta mais, mas que graças a entusiastas de outrora como Collet-Serra e Paul W. S. Anderson não precisamos nos preocupar quanto ao fim. Para caras como esse espanhol de alma americaníssima, esse espírito vive bem e ainda vai render muitas alegrias, pelo visto. 

Comentários (6)

Alexandre Koball | sexta-feira, 26 de Agosto de 2016 - 11:19

Realmente, o banner ficou aqui no Cineplayers durante mais de um mês. Mas o filme parece decente.

Lucas Abreu | sexta-feira, 26 de Agosto de 2016 - 14:37

Tenho visto muitos elogios pra este. Espero coisa boa

Liliane Coelho | domingo, 28 de Agosto de 2016 - 19:11

Achei a nota dada aqui muito baixa. O filme é divertido, tem ótimos sustos e prende a atenção do início ao fim. Minha crítica fica para o final, que é forçado e um pouco exagerado. Mas vale muito a pena, especialmente pela belíssima fotografia.

Marco Roberto de Oliveira | domingo, 11 de Setembro de 2016 - 18:57

Estou querendo assistir esse, sou fã dos filmes com temática de tubarões, em particular "Tubarão" e "Mar aberto".

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