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7+ | Zé do Caixão

Não vou aqui enumerar uma lista de filmes até o ápice do cara. Mojica era da bagaça e fora de ordem sempre! Então o meu caminho é comentar brevemente o seu cinema espetacular neste triste dia de seu falecimento. 

Zé era de origem humilde e de pouco estudo, teve sua faculdade de cinema, por assim dizer, por meio do pai, que era projecionista de uma sala de exibição em um cinema de São Paulo.

É aqui que o negócio acontece!

O cara foi pra cima das câmeras filmar desde cedo. Um autodidata do horror. O caminho do trabalho na marra. De um cara que inventou um gênero no país, seja através do escabroso da nojeira, seja pela violência, ou ainda pela metalinguagem. Esta última usada em vários filmes, com Mojica entendendo o tamanho de seu personagem e como poderia dialogar com ele num novo espectro de terror, com uso de drogas, alucinações e exorcismo. Era o Mojica diretor em confronto com o Zé iconoclasta e cínico. 

Seu cinema foi absolutamente marcado pelo bom trato das imagens. Os supercloses dos rostos absortos no horror, os olhos quando não em desespero, em visceralidade e medo frontal. Ou então no seu usufruto escroto para com as cores nos anos 70. Com muito vermelho sangue, roxo, azul e verde lodo. O seu horror é colorido até o talo no medo e nos contextos dos usos dessas cores —  seja o inferno congelado e colorido em Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967), seja a chuva de sangue brutal em Encarnação do Demônio (2008), tudo em prol do temor.

Isso fora os programas de TV, com destaque para o talk show do Canal Brasil O Estranho Mundo do Zé do Caixão, com entrevistas com as mais variadas figuras, e o Cine Trash da Band nos anos 90, em que eu e a massacrante maioria da minha geração o conheceu.

Esse cara não foi a figura folclórica que vendem, e sim um monstro complexo e extremo que sempre tratou sua obra com amor, raiva, tesão e esculhambação. Do horror em preto-e-branco à pornografia suja feita para sobrevivência em tempos de vacas em coma. Na sua completude, um gênio. Disso a perspectiva histórica irá cuidar daqui em diante.

Listo a seguir algumas obras que dirigiu em diferentes períodos e nas mais diversas circunstâncias.

À Meia Noite Levarei Sua Alma (1964)

O coveiro conhecido como Zé do Caixão aterroriza a cidade onde mora com seu tom de iconoclastia moral contra crendices religiosas enquanto busca a mulher perfeita que gere um filho seu. Zé é o amoral que desconjunta o mosaico de uma cidade conservadora com direito ao estupro da Semana Santa e o escambau. A perpetuidade do sangue como objetivo da existência. A vida após a morte é a hereditariedade, sem mais. Obra prima do horror, com a criação de um dos personagens mais icônicos, escrotos e criativos do cinema. Com a cara da cultura nacional. E popular até o talo, ora —  o cara perambula em locais e profana rituais altamente populares. Anda em bar, joga baralho apostado e bebe cachaça com o povão sempre os tratando como imbecis crédulos; insulta passeatas sacras comendo carne de porco na Sexta-Feira Santa e invoca esculhambações no cemitério entre outras fuleiragens. A união perfeita entre o terror tradicional dos monstros da Universal, principalmente na figura do Drácula, com elementos dramaticamente nacionais. A invenção do nosso horror. Orgulhosamente.

Esta Noite Encarnarei No Teu Cadáver (1967)

Zé sobrevive ao ataque dos mortos de À Meia Noite Levarei Sua Alma e continua sua saga atrás da mulher perfeita que venha a gerar sua prole da perpetuidade do sangue. Tudo isso numa puta criatividade com direito a torturas — um pré-torture porn, com as mulheres sofrendo a contento com o que era permitido pela época e pelo orçamento — e alucinações a rodo (num colorido absurdamente vivo). O corpo sempre teve alta importância para o terror. Como o seu desmembramento serve para o cinema, aqui é a destruição dele, o processo, a procura, que gera o prazer não só dos personagens, mas de um público que anseava por isso. A quebra moral pela nudez e pela violência numa sociedade carola, o corpo está na pauta. A sangria continua. Excelente continuação, com mais recursos financeiros e técnicos (o que não garante um esquema milhardário, já que o filme fora feito em galpões e numa sinagoga abandonada), o que propiciou a espantosa cena alucinatória do inferno colorido e congelado. Maravilha. Como filmar um inferno crível visualmente e com poucos recursos? Vamos congelar o mesmo e aloprar nas torturas! E manter o Zé escorregando surpreendido nesse local colorido do pavor. O cara era mestre em solucionar as coisas com pouca grana e muita inventividade. Mojica foi o cineasta da invenção. E inscreveu-se na história como tal. Isto também não pode ser tirado. Aloprou, mestre.

Encarnação do Demônio (2008)

A parte final da saga de Josefel Zanatas, Zé do Caixão ainda em busca da mulher perfeita — no caso, mulheres, porque o cara ficou ganancioso. Após ter ficado encarcerado por 40 anos, Zé volta à ativa não mais no interior, mas numa grande metrópole sedenta de sangue. Interessante notar a opção do Mojica por uma metalinguagem mais sutil e histórica, por assim dizer. Seu personagem se perdeu no tempo, liberto após décadas, funciona como um elo do diretor com o cinema —  ainda havia espaço pra este desajustado genial? Perseguido pela polícia e por um padre vingativo, sempre dentro dos elementos populares que caracterizam seus filmes, como a vivência na favelas e a derrocada das drogas nas ruas. E uma cena ou outra num bar, claro. A última pedrada de Mojica com seu personagem que o catapultou e rendeu a alcunha de gênio. Aqui há uma pegada aberta do torture porn (algo que lá atrás ele ajudou a criar) com direito a todo tipo de violência absurda. E bem ao estilo dele, uma violência frontal e suja, cheia de insetos, carcaças de porco e perfurações reais. Uma catarse visual por excelência. Um fim digno e escroto pra um personagem excelente e um puta cineasta maldito.

Exorcismo Negro (1974)

Obra envolta na questão do exorcismo, tão cara ao gênero do horror. Aqui Mojica cria uma narrativa que envolve um culto demoníaco com segredos escrotos, vendas de almas e possessões vinculadas a laços familiares escusos. Óbvio que a originalidade peculiar do diretor nos propicia um trato metalinguístico invocado. Quem comanda as possessões é o Zé do Caixão, e o próprio Mojica diretor vai confrontá-lo. Criador e criatura em conflito dialético. A influência da obra de Mojica é explicitada. Zé é real, parte de Mojica. O inferno cavernoso e macabro é transposto da parte final que atende com uma decupagem de enaltecimento, grandeza e poder deste grande personagem. Uma catarse do universo iconoclasta de Zé que o Mojica diretor, dentro da fita, vê sob uma ótica de culpa e responsabilidade própria diante de sua criação. Sua saída de cena melancólica contrasta com a gargalhada de um Zé sacana. Mojica demonstra, como sempre, que de horror ele manjava, e muito.

Delírios de um Anormal (1978)

Metalinguagem, cinismo, oportunismo, censura, genialidade. Estes termos que fazem parte da base desta obra-prima do Mojica. A censura havia exigido cortes de vários de seus filmes, então onde estaria o material cortado? Mojica teve a ideia brilhante/escapista/barata de usar todo esse material subversivo em um novo filme com meia hora de novas filmagens pra se encaixar tudo. A montagem excepcional de Nilcemar Leyart soma muito a esta questão, imprimindo fluidez nesse Frankenstein colorido por filtros abusivos nas imagens em preto e branco e pela escolha das cores gritantes de sempre nas outras. Esse retrabalho sobre o próprio cinema do Mojica e o que o Zé do Caixão representa no imaginário coletivo — algo que ele vinha usando com frequência . Neste caso, fica o exagero e deliciosa pilantragem do usufruto de materiais do chão da sala de edição de seus filmes e de cortes da censura federal. Uma verdadeira luta por sobrevivência no mercado, com a esperteza de sempre. Delírios de um Anormal é o pesadelo como algo perene e visceral, que transpõe medos e realidades, uma prisão de sentidos. O confronto entre criador e criatura e o final acachapante e genial marcam esta obra como umas das maiores do mestre. Mojica era um cara muito foda. 

Inferno Carnal (1977)

Mojica sai do personagem Zé do Caixão e parte para o Zé Cornão, o cientista corno que se vinga. Aqui o diretor parte para uma história de vingança com direito a uma cena absolutamente esperta de uma cirurgia real que Mojica passa e resolvera filmar para por na fita. Esse bicho aproveitava tudo que filmava. Um ninja. Mojica sempre retratava a boemia rica. Zooms e supercloses em abundância que o Mojica combinava com o fotógrafo Giorgio Atilli, algo que eles adoravam, fomentando assim uma lógica visual do seu terror. Esse material grosso e cruel que causa espanto e caos. A trama paralela com a mulher embaça um tanto a surpresa final, mas é interessante pelo caráter dúbio impresso de bela e a fera no esquema Nosferatu, pela forma como é apresentado. A fotografia, aliás, manobra bem pra esconder a maquiagem/máscara desse Nosferatu do chifre, montando um clima melancólico e lúgubre. A repetição das farras de Oliver começam a cansar em parte da narrativa. Poderia haver uns cortes, mas este cansaço e a “cornomansice” de George tinham um objetivo. A vingança de George é lenta, calculada, paciente. Mojica sempre tem um tratamento especial com a carne humana e seus significados em seus filmes. A punição na carne pela carne. O que se reflete no seu final sacana, aliás esse é um cara que sempre resolve bem o final de seus filmes. Impressionante. “É uma história de infidelidade como tantas outras”. Só um chifre maroto.

Estranha Hospedaria dos Prazeres (1976)

Mojica parte para o sobrenatural com gosto em um filme rodeado de problemas na sua produção. Além da falta de recursos usual, o diretor original, Marcelo Motta, não conseguiu segurar a peteca e coube a Mojica, no auge do alcoolismo e da mais absoluta liseira, assumir a direção e corrigir o filme. Acabou por termos como resultado uma obra esquisita e com os toques de gênio que esse diretor sempre providenciou. A morte como um aguardo, uma espera eterna, que, quando não excruciante mentalmente, prazerosa. Um limbo eterno no aguardo de um julgamento que não chega. Tudo isso regado ao cinismo do Mojica e as cores absolutamente berrantes que sua década de 70 carrega. O vermelho sexual em excesso traz um caráter de cabaré infernal. Fotografia de qualidade do Atilli, como sempre. Iluminando bem os rostos com todos estes exageros de cor propostos na lisergia do Mojica. O caráter pornochanchadesco pelo qual o cinema brasileiro passava está presente. Peito e bunda sempre pra fora, algo a se buscar nos desejos do espectador brasileiro. Num país moralista, desejos são presos, e a putaria sempre encontra uma válvula de escape. Mojica percebeu isso e encontrou uma forma de tacar nos seus filmes. Obviamente que o malandro também aumenta várias sequências e monólogos (a filosofia existencialista, característica do Zé do Caixão sempre presente) pro filme ter a metragem de um longa, já que assumiu no meio do caminho um negócio que estava fadado a nem existir decentemente. Nisso ele sempre se virou muito bem.

BÔNUS: Fábulas Negras (2015)

Ótima obra do horror nacional, com muita violência e auspiciosas direções de quem entende do riscado. Destaque para esse último trabalho de direção de José Mojica Marins. O filme inteiro com ótimo trabalho de cores, sangue e ressignificações de personagens folclóricos. No segmento “O Saci”, o nosso agora saudoso (com muito pesar) Mojica nos brinda com uma pequena e rara pérola do horror dando um tom altamente macabro ao Saci Pererê, com violência e visual doentio, transmutando aquele garoto brincalhão num verdadeiro e horrendo monstrinho que estraçalha quem desrespeita a mata, o povo que nela vive e suas crenças. Tudo altamente divertido e com espaço para alta podreira e iconoclastia religiosa e moral, algo que sempre fora parte do modus operandi do diretor. Um cara à vontade atrás das câmeras com uma única preocupação: fazer uma bela e boa de uma bagaceira escrota. A aura do seu cinema é essa. A genialidade dele vem do simples e há um lema que define a simplicidade como o último estágio da genialidade. Nosso Zé fazia isso desde o começo. Pra completar, ainda interpreta um padre pra avacalhar de vez o negócio e tirar um puta sarro.

Comentários (2)

Luís F. Beloto Cabral | quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020 - 21:01

Senti falta de O ritual dos sádicos, mas compreendo que estas seleções não são simples.
Outra menção honrosa seria os filmes de outros cineastas nos quais o Mojica teve expressiva participação, como O profeta da fome do Capovilla, Abismu do Sganzerla e Vampiro da Cinemateca do Jairo Ferreira.

Ted Rafael Araujo Nogueira | quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020 - 23:23

Pois é. É de lascar mesmo ter que cortar vários. Ritual dos Sádicos é espetacular, filme com história rica dentro e fora das telas. Estranho mundo do Zé do Caixão é outra pedrada. Mas preferi dar uma força pra década de 70. São filmes muito bons e pouco comentados. Alguns dos que mais gosto dele são dessa década.

Ted Rafael Araujo Nogueira | quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020 - 23:25

Mantive o foco nos filmes de direção dele, mas todos esses que citaste são importantes na filmografia do mestre.

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