Este comentário é recomendado pela equipe Cineplayers.
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Quer irritar o cinéfilo alienado contemporâneo, justamente por ele ter se permitido virar um? É só dizer, e mais nada, que Quentin Tarantino não merece tanta ovação. Eu particularmente já desisti de expor meu ponto de vista com meus amigos nerds, eles sempre rebaterão argumentos com a mesma agilidade de Pai-Mei manejando uma espada. Tenho minhas dúvidas e meus predicados se Taranta (para os íntimos) não iniciou sua carreira com o objetivo de chegar em ponto de bala até Kill Bill – Volume 1, por mais que Bastardos Inglórios tenha sido uma ideia antiga de longa germinação, também. Mesmo assim, o demônio interno do diretor é aquele moleque imortal que trabalhava numa locadora e sabia tudo sobre cinema underground, essas coisas nunca morrem, elas brotam na memória com violência... “Se eu chegar ao mainstream, algum dia quem sabe, poderei levar o que eu domino pro topo!”, e eu boto mãos e pés na brasa por esses devaneios prematuros da ainda desconhecida alma estratégica por trás de Pulp Fiction.
Não tenho absolutamente nada contra cinema dispensável, daquele que você entra no cinema e desliga o cérebro para religá-lo 2 horas depois após um intenso processo de controle psíquico através da retina e dos ouvidos; o cinema de Tarantino só não segue religiosamente essa estética “ideológica” (hahahaha) graças à genialidade do diretor ao narrar suas histórias tão dispensáveis, em outras palavras, sua alma estratégica nascida para comandar diálogos inebriantes, cenas cheias de segundas intenções que partem do nada e vão a lugar algum, e tal qual uma esponja, o cara absorve inspirações alheias e regurgita em seus próprios filmes algo aparentemente novo, um plágio oficializado. Taranta é malandro formado, não copia em Ctrl V, faz de novo e de um jeito mais atual, mais pop, mais Tarantinesco!
O cerne do seu trabalho, a razão pra ele existir é essa, algo saudável do ponto de vista prolífico da coisa, já que a indústria precisa se reinventar sempre e ele é perito nessa área carente de peritos – daí seu abuso pela habilidade nata de requentar o requentado, em colocar mais água no feijão, voalá! Sendo assim, não pode-se dizer que jamais iremos ver outra miscelânea heterogênea como Kill –Bill, já que o diretor é mais regenerativo do que o Wolverine (Um filme que eu anseio por ver aos moldes de Tarantino) e conseguiu êxito supremo, até agora em sua filmografia, em ser honesto consigo mesmo, mixando brilhantemente duas culturas em um único filme. O filme é uma pornochanchada cultural que homenageia todo jovem garoto que brinca de samurai com o cabo da vassoura da mãe!
A história, e pela primeira vez os diálogos não são importantes (o que causou espanto na estreia do filme, em 2003): O diretor queria nitidamente provar sua habilidade ocidental em romper limites de custo de produção, além de lidar de modo pop com uma história de vingança, e sua habilidade oriental tecendo grandes cenas de ação, explorando sua sabedoria adquirida através da própria maturidade artística. Também é perceptível, em outro nível, que Tarantino teve de se controlar, assim como Coppola em O selvagem da motocicleta em não ser extravagante em termos visuais, pois um passo em falso e tudo poderia se alterar – Scorsese sabiamente ditou em seu livro Scorsese on Scorsese que, num espaço de duas horas fílmicas há um risco de forçar os personagens a saírem do contexto já aleatoriamente estereotipado.
A personagem de Uma Thurman já é clássica, com seu colante amarelo e preto e seus cabelos loiros manchados de sangue igualmente a sua indestrutível espada Hatori Hanzo. Uma víbora mortal louca por uma chance de ficar cara a cara com Bill, seu antigo noivo e assassino de sua filha no dia matrimonial. “A noiva” é uma daquelas criações tão icônicas que é impossível de estragar renegando qualquer regra. As personagens coadjuvantes também são caricatas, tudo é caricato, desde os cenários até a trilha sonora SENSACIONAL (Battle without honor or humanity e Don’t let me be misunderstood são épicas desde o primeiro acorde)!!!
O diretor tem outra habilidade ímpar, um verdadeiro fatality: Ele tem ouvidos maravilhosos, e um gosto melhor ainda. Muitas pessoas ouvem músicas que nunca tinham ouvido antes nos filmes de Taranta, sons resgatados de tempos remotos que a geração internet não imagina ter existido a música naquela época. A girlband “The 5,6,7,8’s” foi sensação nipônica total, sem contar as melodias ambíguas da produção, melodias que parecem ser de uma etnia, e ai você as procura para download e são de uma banda de outro planeta que 99% da população global nunca ouviu falar (Se é por isso que Tarantino escolhe tais músicas para revitalizá-las, essa já é outra história)... Posso dizer com folga que é graças à trilha sonora dos seus filmes, nem mesmo devido os diálogos de estrutura tão forte que é derivada a minha relação de culto e subestimação com o diretor. Afinal é a característica mais predominante de um cinema pretensioso e que romantiza a violência e a anarquia de cunho social, como se uma precisasse da outra para sobreviver.
Eu realmente acho que Kill Bill – Volume 1 é tão divertido quanto poderia ser, com cenas de ação impecáveis (Só pra reafirmar, eu já disse isso), humor-negro pesado e cenas gore leves mas suficientes para fazer Argento, Ruggero Deodato e Chan-wook Park sorrirem, porém também tenho certeza que um Volume 2 foi bastante sobressalente – seria um mundo melhor se no Volume 1 tivessem decidido cortar algumas coisas para terem inserido outras. Seria um épico de três horas com a sensação remanescente de uma hora e meia de duração, e quase todo o escrito e lido acima não iria servir pra mais nada, que se dane. Tudo tem seu preço, e um dia Mr. Quentin Tarantino será cobrado pelo seu ego e será obrigado a fazer um drama, pelo menos uma comédia satírica para provar, lidando com todos os gêneros ser o mestre que ele, cedo ou tarde será. Trono onde talvez será coroado ao fazer seu primeiro filme de terror. 幸運!
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