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As Bicicletas de Belleville
(Triplettes de Belleville, Les, 2003)
Por Pedro Ruback Avaliação:                   9.0
Este comentário é recomendado pela equipe Cineplayers.

Palavras não são necessárias aonde o uso de uma expressiva metalinguagem conduz e faz fluir um filme onde expressões e olhares é o cume.

As Bicicletas de Belleville, animação surreal de 2003, é um produto de fundo artístico e diretamente direcionado ao público não comercial. É inteligente, intrigante e ousado. Com uma linguagem afiada, conta uma história estranha sobre personagens humanos. Crítico de todas as formas possíveis, o filme consegue ser consistente em sua idéia, mas extremamente surreal no que se propõe visualmente, o que não faz com que o filme se torne ruim, apenas... crítico.

Reforçado pela reduzidíssima quantidade de falas, seus personagens conduzem seus destinos de forma silenciosa e quase ou totalmente solitária. Solitária em mente, onde as pessoas à volta são apenas pessoas à volta, onde o sentimento que prevalece é o de que o mundo pessoal é o melhor lugar para se estar quando cai uma tempestade do lado de fora. Aqui parece que uma tempestade cai em torrente eternamente.

O filme propõe um olhar único sobre o mundo, sobre as pessoas, costumes e tradições. É tudo muito estilizado e exagerado em diversos pontos, nos remetendo aos personagens de Tim Burton. Narizes grandíssimos, magreza, pequenez e gigantismo. Mas o que faz com que os personagens ganhem vida são suas expressões e, incluindo aqui, seus movimentos. Talvez esse seja o filme de animação ocidental que mais chegou perto da genialidade dos movimentos dos desenhos de Hayao Miyazaki, ou talvez tenha os alcançado.

O filme foca na vida de uma velha senhora e seu neto triste. A senhora, enquanto o neto ainda criança, vendo sua falta de motivação e tristeza, depressão, procura por algo que o alegre e o dê vida, estímulo para viver. Ela lhe dá um cachorro, mas parece que a companhia de um outro ser não o faz alegre e muito menos o tira de sua vida parada. É, em mais um dia qualquer, que a avó descobre o sonho do pequeno menino: bicicletas. Não demora e ela lhe presenteia com uma bicicleta vermelha. A alegria do garoto é indescritível, logo está na varanda a pedalar. Os tempos se passaram e o menino envelheceu. Agora ele é treinado pela avó para competir em uma corrida ciclística famosa. Nessa corrida, ele é seqüestrado por homens de preto e, vendo a situação, a avó e seu cachorro partem numa busca continental pelo neto seqüestrado.

Como já disse, as expressões são uma das mais poderosas sacadas do filme. A senhora, sempre preocupada e firme, ajeitando os óculos que lhe caem de cima do nariz; o garoto, agora rapaz, que leva a vida monotonamente, seguindo um padrão por ele e sua avó criado; e o cachorro, que corre sempre para a janela para latir sempre que o trem passa ao lado da casa, que, mesmo fazendo um esforço extremo de subir e descer as escadas permanece gordo. O cão consegue, como todo o animal de desenho bem explorado, nos cativar de forma profundo, até mais que os humanos.

Os detalhes dos desenhos não são poucos. Desde os primeiros minutos, durante o filme preto e branco que o neto e a avó assistem, vemos o potencial visual, crítico e estilizado do desenhista e diretor do longa, Sylvain Chomet, conhecido na França por seus desenhos animados e histórias em quadrinhos. Durante um festival, um teatro, mulheres gordíssimas e enormes saem de carros de luxo carregando seus maridos minúsculos e fracos como bonecos. O orgulho, a vaidade, a podridão caracterizado de uma forma tão visual, longe de soar preconceituoso. A mesquinhez, e os homens caracterizados por simples bonecos sem importância aos olhares dos que vêem o casal. A alta sociedade, a burguesia sendo atacada com armas poderosas. Nesse mesmo início, vemos um dançarino (Fred Astaire) ser devorado pelos seus sapatos. A profissão o matando. Vemos muitas dessas ferramentas de crítica e representações de pessoas famosas sendo utilizadas demasiadamente pelo filme, o que o torna único e cruel de certo modo, até mesmo pela violência nele contida, crueza de certas cenas e temas (que conste, a violência não é explícita, apenas como ela é formalizada pelo desenho, que ainda é visto como um meio de comunicação (no cinema) tão inocente), o detalhamento de certos costumes, de um “cotidiano estilizado”.

O filme também consegue estabelecer diversos gêneros, seja como uma homenagem ou não, está presente. Vemos o drama, o gênero que persiste durante o longa, e nele variando toques sutis de comédia alí postos de formas tão naturais e delicadas. Vemos ação e o gênero máfia se cruzando, a seqüência de perseguição é, ao mesmo tempo que engraçada, empolgante, porém, quebra um pouco o ar de um drama pesado como se seguia, mas mantendo o mesmo estilo e suavidade.

De qualquer forma, o público que gosta de algo diferente e estilizado, sem preocupação com o comercial e preocupado com a arte e conhecimento, vale conferir este pequeno filme, ou melhor, grandioso filme.

Por Pedro Ruback, em 02/11/2010 Avaliação:                   9.0
Notas - Equipe
• Alexandre Koball 7.0
• Rodrigo Cunha 8.0
• Priscila Sampaio 8.0
• Régis Trigo 7.0
• Demetrius Caesar 6.0
• Silvio Pilau 8.0
• Rodrigo Torres de Souza 7.5
•  Média 7.4
Notas - Usuários
7.9 (163 votos)
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